sábado, 30 de novembro de 2024

62° DIA

O uso de drogas como abertura. Uma oportunidade de abertura de um diálogo consciente com a sociedade sobre as reduções de danos e humanização do usuário. Uma abertura como forma de driblar ações de criminalização e estigmatização do usuário.

 Vivemos em sociedade e teremos que resolver essa questão de maneira coletiva. Com abertura ao esclarecimentos de práticas, comportamentos e estatutos de ordem legais e ilegais sobre liberdades individuais e direitos coletivos. Os seres humanos possuem direitos humanos básicos em relação ao uso e abuso de sua liberdade. Os direitos coletivos são em relação ao bem-estar social da comunidade. Precisamos legitimar os critérios que humanização sociedades e pessoas. Porém, o caminho não necessariamente nos levará ao paraíso na terra. 

Como civilização, podemos piorar a qualidade das políticas públicas de conscientização e repressão ao uso de substância. Mas, a método de abertura será uma tentativa, por enquanto enfraquecida, diante os usos e desusos de drogas. 

A abertura é uma visão de futuro. Um horizonte de debate coletivo sobre problemas que nos atingem individualmente. Cada usuário faz parte de uma sociedade. Cada não usuário faz parte desta mesma sociedade. A droga faz parte dela também. A política de drogas precisa apostar na abertura de entendimentos e estratégias de conscientização. 

O caminho contrário também é uma escolha. Em sociedade, fechar o debate pode ser mais rápido e eficiente. As consequências disso, na maioria das vezes, acentua o problema social. A droga como abertura é um convite a reflexão sobre a sociedade que vivemos. Por isso, ainda há esperança. Em algum lugar deve haver um entendimento sobre essa questão. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

61° DIA

 O uso da droga como um impulso. A necessidade de fazer a realidade vibrar em diferentes ondas. O impulso por ondas e frequências que trazem prazer, alivio e satisfação. Ou, simplesmente, felicidade. Talvez, o impulso em ser feliz por algum momento. A paz em cada copo, dose ou trago. 

Os seres humanos são criaturas impulsivas. Buscam por ondas e frequências através do uso de substâncias. O impulso é o mesmo, porém, os caminhos produzidos são diferentes. As experiências com drogas são semelhantes, mas, nunca iguais. 

As ondas são diferentes, pois, refletem a necessidade de cada usuário. As frequências são diferentes, uma vez que, os efeitos mudam de acordo com a estado físico e mental, da condição social e econômica de cada pessoa. 

O impulso por consumir drogas, não necessariamente, estão relacionados as drogas. Na verdade, este impulso, é algo da condição humana. Em outras palavras, o impulso pode entendido como  vontade de viver. Todo ser vivo possui o impulso em se manter vivo. Todo ser vivo tem a vontade em continuar sua vida. Podemos chamar essa necessidade de instinto. A fissura em continuar existindo. O impulso por um desejo. A vontade em conseguir algo que torna a vida diferente. 

O ser humano pode ser caracterizado devido a sua capacidade de aprender, interpretar, criar e buscar por conhecimentos que consigam tornar sua vida menos incompleta. É a eterna busca por tornar aquilo que somos: humanos. 

O impulso em encontrar a humanidade perdida. A fissura em satisfazer um vício. A vontade de diminuir o sofrimento. O impulso em encontrar a felicidade. A fissura de respeitar suas falhas. A vontade em reconhecer as fragilidades. Isso, são movimentos harmônicos e desarmônicos da existência. São movimentos associativos e dissociativos de uma vida. São os impulsos de uma droga. Impulsos da vida. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

60° DIA

 O uso da droga como disciplina. Entendida a partir de causas e efeitos de escolhas, situações e acontecimentos. Causas incontroláveis que surgem a partir de eventos, encontros e desencontros. Efeitos inconsciente de comportamentos, expectativas e imponderáveis. A disciplina é uma normatividade exigida conscientemente pela sociedade. Não é algo que se busca. É algo desejável. Necessário a convivência. Uma instituição que representa a consciência moral e social da realidade. Também é algo que se perde. Porém, a disciplina permite formas de negociações entre pessoas e instituições. As pessoas não estão totalmente disciplinas por instituições. E as instituições não conseguem disciplinar totalmente as pessoas. É uma relação contraditória. 

A disciplina é um sistema aberto e fechado ao mesmo tempo. Fruto da sociabilidade, a disciplina exige engajamento, agência e ação prática sobre o mundo. A disciplina que se torna corpo. O corpo de se torna uma habilidade a ser utilizada. A disciplina e habilidade do corpo como uma técnica corporal. 

Em outra palavras, disposições de comportamento refletidos e irrefletidos denominados de habitus. O uso da droga como um habitus socialmente construído a partir de estruturas estruturadas e estruturas estruturantes. Em resumo, a droga estrutura o usuário. E o usuário é estruturado pela droga. Ou o usuário estrutura a droga e, a droga é estruturada pelo usuário. O que observamos na sociedade é: pessoas com disposição a consumir baixo, médio e alto nível de substâncias. Isso, não necessariamente, é uma regra. Porque os níveis de drogas são contingenciadas dentro de contexto de usos e disposições culturais do usuário. O que podemos encaminhar é tentar analisar as experiências pessoais de consumo e relaciona-las com as experiências coletivas. Tentando compreender a complexa relação do usuário com a sociedade e da sociedade com o usuário. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

59° DIA

 O uso da droga como uma forma de viver o presente. As drogas são luzes sobre o futuro, vícios do presente e sombras sobre o passado. A pessoa usuária vive uma relação contraditória com o tempo, com a vida e com outras pessoas. Algo que atinge, particularmente, a pessoa não usuária. 

Orientamos o comportamento, conforme as sombras do passado, os vícios do presente e as luzes de um futuro que nunca chega. Porém, que não deixa de ser desejado. ]

A droga é um componente dessa complexa funcionalidade chamada de existência. É uma ferramenta de combate. Uma ferramenta de defesa. As pessoas estão procurando se defender das situações limites, dos seus próprios limites, de si próprios, dos outros etc.

 A vida é um ato de coragem. De grandes derrotas e pequenas vitórias. Mas, quem sabe apreciar o sabor das "pequenas vitórias" não se assusta ou se apavora com as derrotas cotidianas. Precisamos viver o presente. Encontrando luzes ao final dos túneis. Contornando os vícios e aprendendo com as sombras. As pessoas são dialéticas em suas escolhas, decisões e experiências. É preciso insistir em humanizar o humano desumanizado. É um eterno retorno as condições que permitem a vida em sociedade acontecer. Dentro das pluralidades e multiplicidades de formas de existir, a droga, é uma das milhares de possibilidades que existem de viver o presente. Cabe, a pessoa, ao ser humano, indivíduo, conhecido ou desconhecido. Descobrir suas potencialidades de expressar a sua condição humana do futuro, passado e presente. 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

58° DIA

 O uso de drogas como uma vontade de potência. Necessidade de transgredir o status quo. Eliminar temporariamente o tédio existencial. Não é fácil seguir uma vida e administrar as misérias humanas de uma existência sem sentido. 

A transvaloração dos valores é uma hipótese que se realiza com a bebida. Estar embriagado é atingir um estágio aparentemente superior, alternativo, diferente e fugaz. Porém, a drogadição no geral, é uma forma de alcançar algo perdido. 

Os remédios são vontade de potência de cura de enfermidades. As drogas são vontade de potência criativas, sociais e culturais. Possibilitam representar a realidade a partir de parâmetros singulares, particulares e individuais. As representações da realidade, também são uma necessidade humana fundamental da experiência humana. 

Não é possível viver sem potência e representação. A vida precisa ser simbolizada em seus usos e desusos. Os comportamentos humanos são ambivalentes. Carregam a doença e a cura. A dependência e a autonomia. A escravidão e a liberdade. O sofrimento e o prazer. A tristeza e a alegria. Essa ambivalência nos torna humanos. 

Somos carentes e necessitados. Procuramos preencher os vazios de nossas ausências e diminuir nossa carga de sofrimento. Já diria o outro,  não existe respostas fáceis para questões complexas. Apenas reflexões que tentam de forma imperfeita, com a intenção de compreender a realidade, que sempre escapa ao entendimento. Porém, o vício é maneira de continuar buscando pelas respostas que, aparentemente não virão. 

A vontade de potência é um meio de continuar. Seja qual for a mensagem que isso signifique. Talvez, não signifique nada mas, o que importa é continuar. 

A droga não é um fim em si mesmo. Ela é uma mensagem sobre o desconhecido. Uma incógnita que se revela no vício e dependência. Uma incógnita que se revela nas próprias misérias humanas e sociais. O que importa é continuar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

57° DIA

 O uso da droga como um trabalho, que exige do usuário dedicação, esforço, tempo e compromisso com a jornada. Uma forma de transformação do trabalho abstrato em trabalho concreto. A abstração de aprender a controlar os sintomas e a concretude em manter o controle sobre aquilo que não necessário pode ser controlado. Trabalhando com os efeitos no organismo. Aprendendo a curtir os efeitos. Desprendendo-se da realidade. 

A droga exige do usuário um trabalho socialmente orientado. É preciso saber trabalhar com os desvios, normas e sanções impostas pela sociedade. É preciso saber lidar com os empreendedores morais que classificam comportamento como adequados e inadequados. Isso requer habilidade, técnica e criatividade. Uma forma de trabalho que qualifica as mediações do usuário, sua droga e a sociedade. 

O trabalho na sociedade capitalista. É sempre uma forma de exploração. Explora-se o tempo de vida do trabalhador e o transforma em mais-valia. O usuário também é explorado a partir do vício. Explora-se seu tempo de vida. O trabalho na sociedade capitalista é marcado pela contradição fundamental entre capital e trabalho. A exploração valoriza o capital na medida proporcional em que desvaloriza o trabalho. Ou seja, é a pessoa que acaba sendo desvaloriza no seu ofício operário.

 Com a droga é uma contradição diferente. Ao valorizar a droga. O usuário de desvaloriza na sua humanidade. É uma relação ambígua. Essa relação de ambiguidade produz frustração, revolta, consciência, superação etc. É a partir dela que o usuário pode tomar consciência do seu lugar no mundo. Do seu lugar na luta de classes. Do seu trabalho de transformação.

domingo, 24 de novembro de 2024

56° DIA

 O uso da droga como oportunidade de aprendizagem. No sentido de acessar o desconhecido. Criar hipóteses sobre a realidade.  Desenvolver aptidões sobre limites e possibilidades de lazer, diversão, compromisso e responsabilidade. Uma aprendizagem que caminha ao lado da consciência do que acontece comigo e com os outros a minha volta. 

Nesta jornada de usos e abusos, o usuário não está sozinho. Nesta jornada de pausas e recuos, o usuário não está sozinho. Todos os seres humanos são criaturas sociais, ou seja, são produto do mundo social. A sociedade é uma forma de consciência coletiva que organiza moralmente as pessoas a partir de valores compartilhados. 

A moralidade é uma força social que mantém as pessoas conectadas. Essas conexões são oportunidades de aprendizagem. Ninguém é totalmente sozinho ao ponto de não prestar satisfação de seus comportamentos, pensamentos e sentimentos a outras pessoas. E ninguém é totalmente "prisioneiro" da comunidade que convive. Somos criaturas criativas e inventivas. Procuramos maneiras de não desistir de nossas necessidades. Criamos conflitos para justificar nossas escolhas. Criamos confiança ao enfrentar as adversidades. Aprendemos a partir de erros, falhas e imperfeições. Aprendemos a partir de acertos, conquistas e vitórias.

 Cada ser humano é um potencial em si mesmo. É fruto de criatividade, persistência e aprendizagem. Pensar a droga como um forma de aprendizagem. É humanizar a droga. Percebendo o caráter potencial do seu uso. O potencial, é claro, não excluir o poder de destruição que elas causam. Assim como, os outros vícios que corroem os laços humanos e sabotam a autonomia da pessoa. Porém, a droga é uma forma de aprendizagem sobre a vida. Deixar de usar drogas legais e ilegais  pode ser  mais uma etapa da jornada. É possível aprender de outras maneiras. É possível buscar por outras realizações. Em todo caso, a humanidade caminha criando novas drogas e reprimindo o seus usos. Criando novas drogas e curando doenças. É uma contradição desde o início da civilização. Podemos aprender com isso. Criando novas possibilidades usos e abusos. Precisamos usar a inteligência para melhorar a vida em sociedade. 

sábado, 23 de novembro de 2024

55° DIA

 O uso da droga como um vir-a-ser. Como um "não sei" o que pode acontecer. Como um comportamento que ganha sentido no movimento, na ação, na interação e em relação a coisas, objetos e pessoas. Quando digo vir-a-ser, quero dizer na possibilidade das coisas acontecerem fora do alcance intelectual. Isto é, fora dos domínios da razão. 

A droga é uma forma de acessar o devir humano fora da consciência. Ou melhor, em nome do devir, a droga potencializar transformações da composição neuronal, biológica e social. Cria-se momentaneamente, uma ruptura com a realidade. Produzindo efeitos em cadeia. Efeitos que não cabem dentro de padrões social institucionalizados, isto é, comportamentos considerados "normais" pelas outras pessoas. Principalmente, as não usuárias. 

O devir é algo que opera a partir de parâmetros (des)institucionalizados da agência humana. São comportamentos imprevisíveis, criativos, contraditórios, ambíguos, ambivalentes e etc. Em outras palavras, é o mistério do "não sei" o que vai acontecer. Mesmo com todas as tentativas de prever como se dará o acontecimento. Apesar de tentar se adiantar ao que virá. Precisamos compreender que as possibilidades são infinitas. Precisamos aceitar que a flexibilidade e elasticidade do comportamento humano também refletem na flexibilidade e elasticidade do pensamento. Alterar o comportamento já é uma forma de alteração da consciência. Não seria errado afirmar o contrário. Uma vez que, a mudança de pensamento pode ser uma mudança de comportamento. 

Porém, não existe uma mecânica neste processo. O ser humano é uma criatura social. É influenciado por coisas, objetos, acontecimentos e pessoas e influencia pessoas, acontecimentos, objetos e coisas. Não existe uma "mecânica social" no comportamento do usuário. Pelo contrário, existe uma rede social distribuída no tempo e espaço. Diluída nas relações sociais. Demarcadas pelas interações que tornam a vida em sociedade possível. A vir-a-ser é ditado pela dinâmica dessa rede social que mantém as pessoas interdependentes conectadas. 

Não sabemos o que irá acontecer. Sabemos, que somos dependentes de relações e interações que tornam o uso da droga em um devir. Ou seja, Na possibilidade da vida acontecer.   

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

54° DIA

 O uso da droga com esclarecimento. No sentido de assumir uma posição de discernimento de coisas, objetos e pessoas. Assumindo o compromisso com a substância. Com a teimosa necessidade de encontrar o que lhe foi perdido, tomado e sequestrado. Ter esclarecimento sobre minha condição. Encontrar uma clareza sobre meus comportamentos e pensamentos. 

A droga é um elemento que potencializa vontades. Por isso, é tão usada. Porém, a vida também exige da gente outros tipos de potencialidades. Outros tipos de vontades podem ser descobertas. Outros tipos de necessidades para serem satisfeitas. É preciso buscar pelo esclarecimento sobre vida. Na teimosa tentativa de justificar, compreender e reafirmar nossa condição enquanto seres humanos. 

Carentes por natureza, buscamos pelo reconhecimento de outras pessoas a partir daquilo que nos achamos bons. Somos bons em criar alternativas. Em socializar experienciais sociais catalizadoras de momentos inesquecíveis. De momento humanizadores. 

É importante ter a clareza que podemos ser várias individualidades. O usuário é uma identidade falha, incompleta e imperfeita. Precisamos saber respeitar nossas outras individualidades que existem em nosso ser. Elas precisam ser cuidadas, incentivadas e cultivadas. A droga é uma forma de esclarecimento. Ou melhor, é uma forma de obter, mesmo que de maneira fugaz, o esclarecimento sobre a realidade. 

Viver é uma busca pelo esclarecimento. Nossa vida pode ser caracterizada por diferentes níveis de esclarecimento que obtemos durante nossa existência. Nossas experiências são demarcadoras de esclarecimento. É preciso viver e suportar a vida. Para encontrar o esclarecimento. Tomando consciência das nossas necessidades (não sei até que ponto isto é possível). Para tornar possível chegar até o esclarecimento. Ou, um momento de lucidez em meio ao caos. Uma luz na escuridão que radia para todos os lados. Orientando e guiando o ser humano a encontrar outras possibilidades, formas e maneiras de encontrar a felicidade. Isto é, o esclarecimento. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

53° DIA

 O uso da droga como uma tentativa de controlar o tempo. Uma forma de ter o controle (impossível) da subjetividade produzida pelos encontros entre pessoas e substâncias. Porém, o tempo passa. As horas voam. Estar sóbrio é perceber o tempo passar de forma mais cadenciada. Para não dizer, lenta.

 A droga dilata as dimensões do tempo. A empolgação com mais uma roda. A alegria em pedir outra saideira. Depois de várias outras. Usar drogas é um movimento temporal. Um movimento existencial. De modo que, a tentativa de controlar o tempo, é uma tentativa de controlar a vida. Ou, de perder o controle do tempo. E de perder o controle sobre a vida. 

Em outras palavras, distrair-se temporariamente da sua condição humana. Esquecer que existe. Se esquecer. Atingindo outros estágios de contemplação da vida. Um momento para ser contemplado. Uma vida para ser admirada. Uma droga a ser usada. Contemplar, admirar e usar: uma tríade do tempo. 

O usuário é alguém que contempla e admira. Faz da vida aquilo que a vida faz dele: sofrimento/prazer; prazer/sofrimento. São ciclos temporários que se abrem e fecham. Abertos para trazer prazer e fechados ao sofrimento. Fechados ao prazer e abertos ao sofrimento. Ou seja, são ciclos temporais incontroláveis e imprevisíveis. Entendo isso, como uma forma de lidar com o vício.

 A partir dessa perspectiva, o vício pode ser entendido como ciclos temporários pelos quais o usuário sociabiliza e é sociabilizado durante os períodos de uso e abstinência. Entramos numa dimensão de difícil resolução. Afinal, o tempo e o uso de drogas são agências humanas distintas e semelhantes. Possuem uma dimensão subjetiva e uma dimensão objetiva. Porém, ambas são construídas de acordo com as circunstâncias das relações sociais envolvidas. O tempo é relativo. Assim como, o uso de drogas. Ambas, mudam conforme o ponto de vista. Por fim, da perspectivas de quem usa. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

52° DIA

 O uso da droga como educação. Uma maneira de aprender a viver a partir do vício. De um vício associado ao aprendizado. A educação é uma relação com múltiplos fatores, que coagem as pessoas a pensarem, agirem e sentirem seus limites, suas negações e suas potencialidades. 

A multiplicidade do mundo que cabe dentro em dose. A pluralidade de acontecimentos possibilitado pelo uso de substâncias que tornam suportável e admirável a realidade. Em outras palavras, podemos dizer que são elementos básicos e necessários da sociabilidade humana. Estamos aprendendo a usar drogas. Aprendendo sobre limites e possibilidades da vida continuar se transformando. Se modificando. Se educando. 

O usuário é educado pela droga. Aprende, de certa forma, um alfabeto da drogadição. Aprende as silabas, consoantes, sujeitos, verbos e objetos daquilo que consome. As pessoas estão aprendendo a viver. Estão em constante processo de criação, desenvolvimento e criatividade. A vida muda em cada gesto, palavra e sentimento. Em cada dose. 

No uso controlado de remédios, a esperança da cura ou a possibilidade de viver com a doença. Talvez, de tornar a doença menos agressiva, menos violenta.

Não sabemos. Estamos aprendendo a conviver com nos mesmo e com os outros. A educação é algo que ocorre em sociedade. Por isso, é importante levar em consideração a consciência coletiva. A consciência que habita na individualidade. E a individualidade que habita na consciência. A droga é uma probabilidade de educar sujeitos e sociedades: para o bem e para o mal. E para os dois.  

terça-feira, 19 de novembro de 2024

51° DIA

 O uso da droga como comunicação. Uma forma de comunicar uma ausência ou de preencher uma falta. A necessidade de comunicar simbolicamente ao mundo suas demandas humanas. A comunicação de um signo. De um significado e significante. Uma complexa relação entre consciente e inconsciente. Um mosaico de comportamentos disruptivos que desafiam a ordem. Comportamentos revolucionários que questionam a ordem. A emancipação temporária do sofrimento. Sensação de bem-estar, alegria e euforia. 

A droga é um médium que carrega sentidos e sentimentos. O usuário comunica suas demandas através deste médium. O indivíduo em sociedade é obrigado a comunicar aos seus semelhastes as diferentes camadas de sua ausência. A miséria humana é constitutiva do humano. Encontrar formas de extravasar isto, é uma condição básica do comportamento humano . 

A representação do desejo é uma forma de comunicar ao mundo a necessidade de viver. A vida continua em cada célula, molécula e corpo. A vontade de existir é encontrado dentro de cada ser biológico. O ser humano, enquanto um organismo, também é configurado por está vontade de vir a ser. Em outras palavras, a necessidade de consumir drogas, é uma maneira de representar a vontade. De comunicar ao mundo a vontade de potência. A necessidade do devir. 

A comunicação é um elemento simbólico. Os códigos produzidos por ela são interpretados de acordo com as circunstâncias e contextos de relações sociais. Sempre em movimento, as relações sociais estão em processo de vir a ser. A droga é um movimento da vida. Um flete com a morte. Impulsiona transformações e mudanças. Ela comunica algo que é necessariamente humano: a vontade de viver com (mais ou menos) dor. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

50° DIA

 O uso da droga com uma encruzilhada. Como um caminho errado, um caminho certo, um caminho erradamente certo e um caminho certamente errado. 

Uma encruzilhada que coloca o sujeito no centro de suas ações, comportamentos, pensamentos e reflexões. O usuário está nesta encruzilhada. E precisa sair dela. Será preciso usar da criatividade para encontrar o caminho que lhe convém. Ninguém pode escolher pelo usuário. 

A droga não escolhe ninguém. Pelo contrário. É ela que é escolhida. Ao entrar na encruzilhada a pessoa tem a oportunidade de aprender a viver por conta própria. Pode aprender a assumir a responsabilidade pelos caminhos que trilha. 

Tudo é rio. As margens mantém o rio temporariamente controlado. Disciplinado em seu curso. Seja como rio que corre para o mar. Seja como a trilha que te leva a lugares desconhecidos. Seja como o caminho para a abertura ao diferente. Seja como a encruzilhada, que te coloca diante de si mesmo. Se olhe no espelho é pergunte: quem é você? O que quero ser?  Qual o sentido de estar passando por isso?  Quais são meus traumas? Por que estou sofrendo de algo que não são da minha responsabilidade? E se são. Porque não assumo que sou digno delas? 

É preciso enfrentar as dificuldades da encruzilhada. Aprendendo a cair. Aprendendo a se levantar. Aprendendo a ser gente. Aprendendo a suportar. Seja lá o que isso signifique. 

A droga não é a encruzilhada. Ela faz parte dela. O usuário não é a encruzilhada. Ele preciso decodificar a mensagem entregue pelo mensageiro. A vida é um mistério a ser revelado. A revelação é que não há mistério. Ou melhor, a revelação está na caminhada individual por entre as multiplicidades de encruzilhadas. 

A droga é o mensageiro. O usuário é a mensagem. A droga é a mensagem. O usuário é o mensageiro. A encruzilhada é um ponto crítico: olhe para dentro de si e encontre o que procura. O caos e ordem são pontos de vista. Talvez, os dois convivam em (des)harmonia dentro e fora da sua consciência. 

domingo, 17 de novembro de 2024

49° DIA

 A droga como encontro entre diferentes culturas, pessoas e perspectivas. Pensando dessa forma, a droga pode ser vista, como uma forma de chave de acesso a fronteiras do desconhecido. 

Analisando o uso da droga a partir de critérios antropológicos, percebemos que, o usuário é agenciado pela cultura da drogadição ao mesmo tempo que é agente da cultura da não-drogadição. É um "efeito duplo" pela sociedade. 

Em outras situações, o "efeito duplo" da agencia que chamamos de "uso da droga" possibilita infinitas combinações de interpretações, compreensões e sentidos para que usa. Dessa forma, a droga é caracterizada pela pluralidade e diversidade de arranjos ou rearranjos culturais que as pessoas criam a partir de seus contextos culturais. Entendo isso, como uma forma criativa de encontrar saídas culturais para a imaginação humana e o poder de intervenção no mundo social. 

O usuário é inteligente. Sabe bem como lidar com o "efeito duplo" da sua condição: ao mesmo tempo que cria e criado pelo uso da substância. Em outras palavras, ao mesmo tempo que cria e criado pela cultura. 

A cultura é conceito plural. Usamos a palavra no singular para facilitar o entendimentos. Mas, sempre que pensar no conceito de cultura. É importante imaginar na pluralidade. Por isso, a droga, não deve ser singularizada. São drogas. Assim como, o usuário, precisa ser pensado fora de estereótipos e simplificações. 

Se quisemos avançar na discussão sobre o uso de drogas, precisamos seriamente e urgentemente, considerar a complexidades e pluralidades de usuários de drogas que existem. Levando em consideração o contexto cultural, politico, econômico e social. 

O usuário é inteligente. O usuário é uma pessoa. O usuário é um ser humano. E precisa ser trato com dignidade. 

sábado, 16 de novembro de 2024

48° DIA

 O uso da droga como uma maneira de renascimento. Quando a morte é orientada pelo consumo de substância, a vida é desestabilizada pelos efeitos colaterais, uma terceira possibilidade surge do aparente caos e confusão do usuária: o renascimento. 

Essa afirmação possui uma perspectiva laica. Porém, pode ser interpretada a partir de uma perspectiva religiosa. Não há problema algum. Só não deixe de consideram os aspectos humanos que impactos nas decisões, escolhas e consequências dos processos de vida, morte e ressureição. Presente, na existência de qualquer pessoa. 

Não se trata de julgar moralmente o comportamento do usuário. Trata-se de uma tentativa de compreender o fenômeno da drogadição a partir das ciências sociais e, principalmente, da filosofia. 

Dizer que a droga é uma possibilidade de renascimento. É acreditar na vontade, vocação, potência e sentimento orientados para a mudança e transformação. Sem perder o senso crítico que o renascimento, pode colocar o ser humano diante de problemas semelhantes ou repetidos. Não há como controlar isso. A droga é uma tríade de sofrimento, prazer e (des)continuidade. Em outras palavras, morte, vida e renascimento.  

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

47° DIA

 A droga como uma forma de acessar outros mundos. O mundo social rotinizado tem seus momentos de tédio, responsabilidades e obrigações. É um mundo com  limites, opressões e sufocos. É preciso encontrar maneiras de driblar a monotonia das horas, dias, semanas e anos. 

A droga é uma forma de construir outras realidades a partir de encontros compartilhados com as substâncias licitas e ilícitas. Socialmente, a característica da droga influência o acesso ao mundo fantasiado e cria fantasias para o mundo. Ou seja, uma ilusão sobre a rotina, um feitiço para quebrar a realidade do mundo rotinizado. Uma mágica ao alcance das mãos.

 O uso da droga, socialmente falando, é uma forma de criar realidades para si a partir, ironicamente, da mesma realidade que sufoca. É um efeito placebo (ou não placebo) sobre a consciência. A tentativa de fugir da realidade é uma necessidade humana mais antiga que a própria humanidade. Seres humanos precisam "fugir" dos problemas com a intenção de aliviar a carga ou simplesmente, se divertir ( se distrair). 

A criatividade  é intrínseca  ao comportamento. Por isso, é infinita a possibilidade de criar realidades e mundos. Existem várias formas de criar "realidades paralelas" ou "mundos alternativos". O uso de substância é uma delas. Talvez, uma das mais utilizadas. Assim como, a religião, ciência e a arte. 

Nós, seres humanos, precisamos criar outros mundos. Outras possibilidades de estar no mundo. De existir e continuar existindo. Mas, os mundos criados não estão fora da realidade. Desejo, prazer e necessidade são estágios encontrados em ambos. Essa dupla forma de representar a realidade é uma das características da condição humana: criamos realidades para continuar vivendo a realidade. Mas, afinal, o que é a realidade? Pergunte a droga. Pergunte a Deus. Pergunte a ciência. Pergunte a si mesmo. Para mim, neste momento, a realidade é a vacuidade. Em outras palavras, a realidade é um "NÃO SEI".   

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

46° DIA

 A droga como uma construção humana. Uma instituição criada por objetivos específicos de recreação, diversão, lazer e alegria. Uma instituição como qualquer outra. Constituída também por contradições e ambiguidades do comportamento humano. Assim como, suas misérias, decepções, frustrações, expectativas. Como uma promessa de uma boa vida. Um sonho realizado. Um pesadelo vivo. 

Afirmar que a droga é uma construção humana, é também atribuir ao ser humano a responsabilidade e respeito por aquilo que produz e é produzido, ou seja, a própria sociedade. Os seres humanos são construtores de instituições e constituídos por elas. As instituições existem para satisfazer necessidades e saciar prazeres. Os desejos da alma transfigurados em substância que alteram o funcionamento do cérebro e melhoraram ou pioram a performance social: a droga é produto da criatividade humana. Da agência e do potencial de agenciamento humano a partir de problemas oriundos da vida cotidiana. Construções humanas criam problemas humanos. 

Problemas humanos obrigam "novas" construções humanas. Qualquer tentativa de controle, disciplina, usos e abusos são de responsabilidade do ser humano (no sentido conceitual do termo). As entidades divinas, que fazem a mediação entre humanos e não-humanos. Entre a sobriedade e a drogadição. Entre o mundo dos vivos e os mundo dos mortos. São mediadores de processos criativos criados e desenvolvido por seres humanos. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

45° DIA

 O uso da droga como uma ansiedade. Uma forma de adiantar o futuro estando no presente. Vivendo o presente como se fosse o futuro. A ansiedade que atinge o sujeito a procura de segurança e conforto existencial. A droga como uma maneira de controlar sentimentos. Propondo pontos de fugas. Contornos de gatilhos emocionais, políticos e econômicos. Uma ansiedade que aprisiona ao mesmo tempo que possibilita um aprendizado sobre o passado. O uso da droga como fuga, um contorno, um controle sobre aquilo que não posso controlar. Um caos ordenado dentro de "ondas" e "círculos" de vícios: quero usar, não quero usar, preciso consumir, não preciso consumir, estou ansioso, já não estou ansioso. Preciso beber. Já não preciso mais beber. Porém, a ansiedade não termina. Ou melhor, a ansiedade se modifica a partir das perspectivas que tenho sobre ela. Vou viciado. Já não sou viciado. Preciso de álcool. Já não preciso de álcool. A necessidade e desejo que pulsa dentro de organismo programado a falhar. Vício imperfeito. Vida imperfeita. Efeito placebo e paliativo de dores que não passam. A ansiedade é uma droga. A droga da ansiedade. 

terça-feira, 12 de novembro de 2024

44° DIA

 A droga como um modo de produção de pessoas. Dizer isso, de forma alguma, remete a excluir as negatividades, autodestruições, autossabotagens e niilismos em relação ao uso e ao usuário. 

Penso em algo que complemente essas situações, mas que não deixe de incluir na reflexão sobre o uso de drogas os elementos que constitui socialidades necessária a convivência humana. O uso de drogas é um modo de produção de pessoas a partir do momento que a droga é um artefato cultural. 

Sua circulação entre os seres humanos e tão antiga quando a própria humanidade. Porém, nos últimos séculos, principalmente, na segunda metade do século XX, e início do século XXI. Particularmente, após as políticas pública de proibição e dissuasão sobre o uso de drogas ilícitas. Também chamada de "Guerras as Drogas" seu uso tem crescido de forma vertiginosa. 

Dessa forma, a droga considera como instituição humana, consegue driblas as legislações e as práticas de repressão. E consegue chegar até os consumidores. Ao perceber as drogas como um modo de produção de pessoas. É mudar a perspectiva sobre uso e abusos de substâncias em sociedades. As pessoas são produtos e produtoras de suas interações sociais, contextos e relações com outras pessoas. A droga enquanto artefato cultural, fortalece ou enfraquece os lações sociais que mantém a sociedade organizada sobre suas bases morais, éticas, políticas e econômicas.  

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

43° DIA

 O uso da droga como uma postura ética. Como uma escolha ética entre aquilo que me afeta e pode afetar a terceiros. A liberdade do usuário de agenciar o seu comportamento. A possibilidade da avaliação entre o certo e errado a partir de padrões éticos de escolhas e renuncias. É preciso dizer, sim. Também é preciso dizer, não. 

São escolhas éticas impostas a qualquer ser humano. A ética diz respeito ao uso e o uso diz respeito a uma ética. A ética do usuário é de sua responsabilidade, porém, as consequências de seus comportamentos são sentidos por toda a sociedade. 

Por isso, para o bem e para o mal, a droga é um fenômeno gerado e produzido pela sociedade. Dessa forma, mesma sociedade que oferece a droga. Também condena o seu uso. Mas, não é toda a droga que é criminalizada, marginalizado ou estigmatizada. As drogas são componentes fundamentais para o funcionamento das instituições sociais. São legitimas, quando não modificam de forma significativas o funcionamento da sociedade. São ilegítimas, quando por critérios políticos, morais e éticos, são uma ameaça ao status quo da ordem social. 

A ética da sociedade é confrontada com a ética do usuário, que reivindica seu direito ao uso. A ética da sociedade é aliado com a ética do usuário, quando é reivindicado o cura de uma doença ou a diminuição de um sofrimento. Dessa forma, a ética é contraditória e ambivalente porque ao mesmo tempo em que protege, também condena. 

domingo, 10 de novembro de 2024

42° DIA

 As drogas como armas e ferramentas de sociabilidades. Uma arma quando usada para destruir sociabilidades emergentes (rebeldes) e uma ferramenta de construção de sociabilidades emancipadas (revolucionárias).

 A sociabilidade produzida pela droga funciona em rede. É uma sociabilidade organizada a partir de trocas voluntárias ou obrigatórias. No sentido que Marcel Mauss atribui aos estudos sobre a dádiva. As relações de trocas da drogadição são complementares e interdependentes. A droga é constituída por "circuitos sociais" que são acionados com conexões de sentido, práticas compartilhadas e comportamentos agenciados de acordo com o contexto, aprendizagem e experiência de uso. 

O usuário é organizado institucionalmente pela prática, conhecimento e experiência dos efeitos da substância na mente e corpo. É necessário aprender a controlar os efeitos e saber lidar com os efeitos colaterais. Afinal, armas tem o poder de causar guerras, mortes e destruir pessoas. 

As ferramentas são usadas para facilitar a vida em sociedade, transformar pessoas e produzir novas realidades. A sociabilidade produzida pela droga é um fato incontornável. Entre destruir ou construir fica a critério do usuário. 

sábado, 9 de novembro de 2024

41° DIA

 O uso droga é um signo. Possui um significado simbólico para quem faz uso da substância. Dessa forma, a droga, é uma forma da agencia humana criar e desenvolver comportamentos criativos a partir da cultura e contexto. 

A droga possui um valor simbólico para os indivíduos, o vício, não necessariamente é um erro. Na verdade, é uma prática reflexiva transformada em vício. Que centraliza na droga o signo da alegria, satisfação, felicidade etc. A droga é produto da cultura. E como tal, as indivíduos se apropriam dela, criando significados a partir de suas experiências de uso. 

Por isso, condenar o uso de substâncias que alteram a percepção da realidade tende a apresentar resultados equivocados. Uma vez que, o usuário simboliza na drogadição a um comportamento criativo ao mundo que não corresponde as suas expectativas, responsabilidades e obrigações. 

Cabe lembrar, que os seres humanos criam infinitas formas e maneiras de simbolizar o mundo, onde a droga, é uma entre milhares de possibilidade de dar, receber e retribuir sentindo e significado ao mundo social. Porém, a criatividade do comportamento do usuário, encontra na sociedade, uma limitação do seu próprio comportamento por conta das rivalidades com outras práticas culturais. Porém, nada impede a agencia humana (comportamento, práticas e pensamentos) diversificar as experiências sociais aprendendo outros sentidos e significados da realidade a partir de outros signos. 

O foco da análise não está na droga. E sim, nos sentidos e significados que as pessoas dão a suas experiências com a droga. O símbolo é uma atividade humana que mantém as estruturas sociais e indivíduos organizados, arranjados e rearranjados em suas prática. Isto é, a seus comportamentos. A droga é um problema químico, psíquico e, também, social. Por isso, precisamos observar os comportamentos dos indivíduos na tentativa de compreender os signos, sentidos e significados que são atribuídos, ensinados e aprendidos com as experiências com drogas e drogadição.  

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

40° DIA

 O uso da droga como um encontro. Nós nos encontramos com o vício. Interagimos e socializamos com camaradas de caminhada. Suportamos o peso da existência nos ombros. É importante distrair. Encontrando formas de recreação. Formas de esquecimento. Formas de desencontros. Assumindo uma responsabilidade com a "onda'  experimentada. Garrados em experiências coletivas de usos. Brisas individuais. Viagens. Formas de lazer, entretenimento e diversão. A droga é um desencontro. Necessidade de se perder e não ser localizado. Não ser encontrado. Estar em paz na fissura. Estar em paz com a necessidade. Espírito livre. Espírito preso. Espírito perdido. Espírito encontrado. O uso da droga é uma forma de se perder ao mesmo tempo em que se procura se encontrar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

39° DIA

 A uso da droga como uma forma de continuar vivendo ao mesmo tempo em que se caminha para a morte. O uso da droga como uma forma de morrer ao mesmo tempo em que se preocupa em viver. A vida é um breve intervalo entre a nascer, viver e morrer. 

Ela está marcado por usos e abusos de coisas, substâncias, sistemas e da natureza. O ser humano é parte do todo. Este todo chamado de cosmo, natureza, sistema ou natureza. E onde os seres humanos descarregam suas frustações. Onde procuram por satisfações. São alegres e tristes. Tristes e alegres. Entram em conflitos. Brigam e fazem as pazes para brigarem novamente. Há uma trégua. Um respeito. Um afastamento. Depois, volta tudo. As brigas, conflitos, acertos e erros. 

A vida é um intervalo entre um efeito de drogadição e o retorno a lucidez. A lucidez como drogadição não possui o mesmo efeito químico, biológico e social. E deveras racional. O uso da droga não necessariamente é algo realizado para ficar lucidez. Pelo contrário, a busca é por outros estágios da consciência.

 A vida é um processo de consciência sobre a finitude chamada de morte. A morte é um processo de consciência sobre o final. A droga é uma passagem entre mundos. Estar sóbrio ou estar drogado são contradições complementares e interdependentes. A metáfora da vida e morte também revela este enigma. 

A vida e a morte são contradições complementares e interdependentes. Não se trata em comparar sobriedade com a vida ou a drogadição com a morte. Sugiro uma leitura mais detalhada da realidade do ser humano que faz uso de drogas. Ele, não necessariamente está querendo morrer. Pelo contrário, reafirma a vida em cada porre, dose, trago, carreira etc. Estar garrado no uso de drogas é uma reafirmação da morte. Uma tentativa de encontrar uma forma de cuidado, consolo e alívio. Ou simplesmente, viver. 

Ao nascer estamos condenados a encarar a negação da vida que se chama morte. Eis o mistério a ser resolvido. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

38° DIA

 A droga como caminho. Uma busca pelo sentido. Um caminho a ser experimentado. Uma experiência. O uso da droga como um processo, uma caminhada pelo desconhecido. Conhecer aquilo que posso experimentar. Experimentar aquilo que posso sentir. Em outras palavras, o uso das drogas é a representação de uma vontade. 

A vontade de uma representação da realidade. A vontade de algo. A representação de um caminho. A droga como um ciclo de sofrimento. A droga como um ciclo de desapego. Uma vontade de potência. Para o usuário, o que importa é continuar o caminho. A carreira moral do usuário é caracterizado por vários ciclos e quebras de ciclos. São várias vontades de existir. Múltiplas representações do mundo. A drogadição é uma representação do mundo.

 A vontade é o vício. O vício que aumenta. O vício que diminuiu. Controla e descontrola. O ser humano está condenado ao sofrimento. Porém, pode encontrar um alívio em outros prazeres. Outros caminhos para aliviar o tédio. 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

37° DIA

 O uso da droga como uma luta solitária, que  batalha em alguns momento a favor da solidão. Em outros, contra. Uma solidão dividia e compartilhada. Na tentativa de encontrar uma completude negada. Ou, a positivação de convicções e verdades temporárias, cristalizadas nas experiências de drogadição. 

Uma luta por reconhecimento. Uma luta pela afirmação e por ser percebido. A solidão que acompanha a condição humana. Não estamos sozinhos. Sim, estamos sozinhos. Talvez, estamos completos na solidão de cada um. Sozinhos em um nós.

 A droga é uma tentativa de diminuir ou aumentar as fronteiras da existência. Diminuir a solidão compartilhada. Uma luta contra si mesmo. Uma luta a favor de si mesmo. Uma solidão transformada em engano. Um engano transformado em solidão. A droga em si, não é um engano. O engano é um sentido atribuído pela ação humana. Talvez, não seja engano, considerar que a busca por sentido é uma prática humana básica. Uma forma de administrar as contradições de uma vida. De uma vida contraditória. Uma forma de continuar sobrevivendo. 

O usuário está sozinho em sua luta por reconhecimento social. Reconhecer que minha condição de usuário não pode se sobrepor sobre minha condição de humano. Todo usuário é um humano. O humano é um usuário. Somos reféns da solidão. Reféns do vício. Reféns da vida. Reféns de um luta por se tornar aquilo que desejamos ser: uma completude incompleta. Uma solidão completa. Uma completa solidão. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

36° DIA

 A droga como laço social que mantém as pessoas conectadas. Os laços sociais são "fios invisíveis" que mantém as pessoas "firmes" diante a hostilidade do mundo. Estar firme diante ao mundo hostil e indiferente, e uma necessidade que acompanha os seres humanos desde o inicio da humanidade. 

A droga é uma forma de laço social. Um compromisso com a realidade de si e do próximo. Os fios invisíveis produzem a sensação real de desejo, pertencimento e reconhecimento do grupo social. É uma forma de diminuir as contradições da vida social. Condição humana que busca amenizar as ambiguidades das demandas, responsabilidades e afazeres de um mundo organizado a partir da lógica concorrencial. O laço social é o que afirma a humanidade. O laço social é o que condena a desumanidade. 

O usuário, ora, é um ser humano em busca de satisfação. O usuário, ora, é uma criatura desumanizada que está autossabotando a própria vida. Ora, é as duas coisas. 

domingo, 3 de novembro de 2024

35° DIA

 A droga como acaso. Como um destino que se manifesta em cada encontro. Em cada dose da droga. Um acaso que se apresenta a partir das relações com outras pessoas. Estabelecidas a partir do uso continuo ou controlado de substâncias. O inconsciente apontando o caminho. O caminho sendo apontado pelo inconsciente. O acaso é um elemento presente na relações humanas. E sendo as relações humanas frutos de um aparente acaso, a droga, é um fenômeno das relações entre pessoas. 

Experiência de brincar com o destino. Enquanto o destino brinca com a vida. Brincar no sentido recreativo do termo. Um retorno a infância. Uma infância vista como estado de espírito momentâneo. Por fim, chamamos de acaso um conjunto de fatores, elementos e acontecimentos que acorrem na realidade. Na maioria das vezes, sem controle interno e externo dos sujeitos que caminham sobre o mundo social através de um pouco de alívio, diversão e, quem sabe, do destino.  

sábado, 2 de novembro de 2024

34° DIA

 O droga como limite de algo, alguma coisa e de um corpo. Um limite inconsciente daquilo que sinto, porém, não compreendo. Ou por não compreender, sinto. Limite sobre a realidade e comportamento sem limite sobre situações e acontecimentos. Aquilo que não tem fim. Um fim por si mesmo. O limite que se impõem sobre a consciência: a ressaca moral. 

A droga como limitação de experiência e expansão de possibilidades de novos aprendizados. O limite da própria condição humana ou um ser humano condicionado pela sua própria limitação. Situações limitantes, no sentido positivo do termo, ou seja, procurando entender o contexto de vulnerabilidade que a atinge os humanos. Independente de classe social, cor, grau de escolaridade, renda, religião, profissão, famílias etc. Somos criaturas limitados pela própria condição de estar vivo: o limite da vida é a morte. O limite da morte é a vida. 

Dança macabra com a liberdade. Liberdade macabra que dança. Os limites do certo e do errado são convenções socialmente construídas independente de vontades individuais e pessoas, a sociedade continua apontando o caminho da liberdade individual. Quais são os limites? O que é a droga? O que é a sociedade? Quem é você? Somos a possibilidade ilimitada de existir. Qual é o seu devir? Qual é a sua alter-ação? 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

33° DIA

 O uso da droga como metade do caminho. A metade é uma forma (des)medida da falta ou ausência de desejo ou prazer. A metade de uma totalidade. A totalidade que cabe dentro de uma metade. De uma falta. De uma ausência. A droga é uma ausência ou falta de uma completude. Seu uso é uma busca. Um caminho que se faz caminhando. Uma carreira que se curte, curtindo. Uma fissura que controla vontades e verdades. Indisciplina corpos e mentes. O ser humano é uma metade de uma totalidade. Uma condição incontornável. Uma metade que não se completa porque ela já é sua própria ausência. Ou seja, é a outra metade que faltava.