quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

66° DIA

 O uso de drogas como uma forma de concluir ciclos de vida. Na vida, o ser humano se vê confrontado com diferentes dimensões do existir. Em outra palavras, somos diariamente provocados a continuar vivendo a vida não impor qual seja a situação, contexto e condição que a pessoa encontra-se. Revela-se aqui, aberturas para desentendimentos com a ordem, realidade, mundo, poder etc. O ser humano cansado de encarrar as condições impostas a sua existência, buscará a qualquer custo reafirma a sua existência na terra. 

O período de abstinências de 66 dias não foi um capricho. Na verdade, procurei reverter a necessidade de beber em outros prazeres que considero importante: ouvir música, estudar, ler, pensar e escrever. Por isso, resolvi escrever este diário como uma forma de registro de um ciclo da minha vida. Não satisfeito com os caminhos que o álcool havia conduzido minha existência, deliberadamente, procurei dar um tempo para observar minha própria condição de usuário. 

O objetivo foi encontrar saídas criativas para as inquietudes que devoravam minha consciência. Com este "Diário da abstinência" procurei compartilhar algumas reflexões que consigam cativar, motivar e quem sabe, influenciar um debate franco, sincero e esclarecido sobre o uso e abuso de drogas. 

Ao fim desta jornada, chego a pobres conclusões sobre o uso de drogas. Porém, isso já valeu o passeio. Agradeço a todos que acompanharam a jornada até aqui. 

Por fim, caso esteja inquieto com suas práticas de drogadição. Seja ela qual for, (no momento estou vício em chá), dê um tempo nela e passe a observar outras possibilidades da sua vida acontecer. Seja criativo é desenvolva subterfúgios para fugir da "nóia". Existe um ser humano em você. As drogas são uma parte minúsculas de outras prazeres da vida. 

É hora de levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta em "ciclos de sofrimento". 

Vá em frente... 

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

65° DIA

 O uso droga como um conceito insuficiente para compreender a realidade. Um conceito que escapa à realidade dos fenômenos humanos. O conceito é uma ferramenta de análise. Que não necessariamente precisa ser usado para concluir ou fechar entendimentos. É da própria natureza do conceito apresentar determinadas  falhas e insuficiências em explicar realidades em movimento. 

 Considerar a droga como um conceito, é tentar oferecer a sociedade reflexões que podem (ou não) ser consideradas importantes para a conscientização sobre usos e abusos de substâncias. É da natureza da própria reflexão não chegar a conclusão alguma. Porém, as reflexões podem modificar práticas e práticas modificam as reflexões sobre antigas práticas. 

Digo prática no sentido de comportamentos em sociedade. Em outras palavras, a reflexão pode modificar comportamentos. A realidade escapa de qualquer conceito. E isto, é o possibilita o conhecimento desenvolver e avançar. A realidade nega o conceito. O conceito procura afirmar a realidade. A realidade volta a negar o conceito. Neste sentido, é possível perceber o pensamento em movimento. Tentando acompanhar o movimento da realidade. 

O uso da droga como uma realidade é um fato comprovado por usuários, dados, estatísticas, experiências, vícios e etc. Mas, o uso da droga como conceito é uma promessa da filosofia e ciências humanas. Ainda não entramos em consenso sobre as bases conceituais das drogas. Apesar de inúmeras tentativas de sínteses sobre o assunto.  

A arte é um campo do conhecimento que explora, ao meu ver, com maior profundidade a realidade das drogas. A arte deixa aflorar as potencialidades artísticas do usuário. A alteração do estágio de consciência é um ganha (ou perda) para a produção artística. Por fim, o conceito é válido. A partir do momento que respeito os limites das suas próprias limitações de sua tentativa de compreensão. Entender o uso de drogas é encarrar os limites do próprio entendimento sobre o que é uma droga. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

64° DIA

 O uso da droga como uma experiência do descontínuo. O descontínuo é um convite a inteligência. A reflexão sobre o objeto e sujeito a partir da experiência do descontínuo. Possibilita o conhecimento sobre a realidade do chamado "mundo das drogas". 

Conhecer a realidade é uma continuidade. A inteligência humana procura unir as partes de um todo. Dando um sentido aparente a uma totalidade chamado "mundo das drogas". Essa totalidade é o que torna o entendimento ou julgamento da realidade possível. Mas, a inteligência é limitada exatamente pela característica descontínua da própria realidade. Do próprio mundo. Essa descontinuidade está em movimento. Em constante transformação.

 Segundo Henri Bergson, "o movimento é sem dúvida a própria realidade, e a imobilidade é sempre aparente ou relativa." Pensar o uso de drogas como uma experiência do descontínuo, é considerar a inteligência do usuário diante a realidade que procurar esquecer e entorpecer. Sempre em movimento, a realidade descontínua do usuário é confrontado com a continuidade do mundo inteligível a sua volta entram em choque. Produzindo crises, conflitos e mudanças. Por isso, devemos considerar o caráter reflexivo do comportamento e práticas da drogadição. 

Buscar por uma continuidade, ou seja, por conceitos, julgamentos, preconceitos e estigmas  também é uma forma de limitar a compreensão da experiência, sempre em movimento, do uso de substâncias. Uma realidade que sempre nos escapa porque está em movimento. Em descontinuidade, o uso da droga é uma metáfora para o movimento da vida. Isto é, de existir.  

domingo, 1 de dezembro de 2024

63° DIA

 O uso da droga como fechamento. Como a possibilidade de fechar o debate e concluir a conversa. Fechar-se em preconceitos, estigmas e estereótipos. Criando um contexto de desumanização do usuário. Contribuindo para o (não) entendimento, o (não) esclarecimento e a (não) consciência sobre o uso de drogas. Quando nos fechamos em nossas próprias convicções. Abrimos espaços para a ignorância sobre as diferentes formas da vida se manifestar. E condenamos a diferença. Ao fechar uma discussão. Reforçamos nossos preconceitos, e perdemos a oportunidade de aprender com a pluralidade de opiniões, ideias e experiências. 

A necessidade de usar drogas é uma condição que acompanha a humanidade. Fechar-se a esse fato é desistir de considerar a natureza humana como uma complexidade. É desistir de compreender a constituição de sujeitos e suas experiências humanas. É diminuir a agência humana a uma simples dicotomia do certo/errado, bom/mal, usuário/não usuário e etc. É possível imaginar os motivos de quem escolhe se fechar em si próprio. E, muitas vezes, é o próprio usuário que se fecha em seu vício. Porém, a vida, exigi muito mais. 

É preciso descobrir formas de abertura. Maneiras de expandir as perspectivas e expectativas de uma vida. Como sugestão, convido, a deixar o" casulo da segurança existencial". E saia para  descobrir por conta próprias outras aberturas e possibilidades de existir, pois, a vida também se manifestar em seus desconfortos e inseguranças. 

sábado, 30 de novembro de 2024

62° DIA

O uso de drogas como abertura. Uma oportunidade de abertura de um diálogo consciente com a sociedade sobre as reduções de danos e humanização do usuário. Uma abertura como forma de driblar ações de criminalização e estigmatização do usuário.

 Vivemos em sociedade e teremos que resolver essa questão de maneira coletiva. Com abertura ao esclarecimentos de práticas, comportamentos e estatutos de ordem legais e ilegais sobre liberdades individuais e direitos coletivos. Os seres humanos possuem direitos humanos básicos em relação ao uso e abuso de sua liberdade. Os direitos coletivos são em relação ao bem-estar social da comunidade. Precisamos legitimar os critérios que humanização sociedades e pessoas. Porém, o caminho não necessariamente nos levará ao paraíso na terra. 

Como civilização, podemos piorar a qualidade das políticas públicas de conscientização e repressão ao uso de substância. Mas, a método de abertura será uma tentativa, por enquanto enfraquecida, diante os usos e desusos de drogas. 

A abertura é uma visão de futuro. Um horizonte de debate coletivo sobre problemas que nos atingem individualmente. Cada usuário faz parte de uma sociedade. Cada não usuário faz parte desta mesma sociedade. A droga faz parte dela também. A política de drogas precisa apostar na abertura de entendimentos e estratégias de conscientização. 

O caminho contrário também é uma escolha. Em sociedade, fechar o debate pode ser mais rápido e eficiente. As consequências disso, na maioria das vezes, acentua o problema social. A droga como abertura é um convite a reflexão sobre a sociedade que vivemos. Por isso, ainda há esperança. Em algum lugar deve haver um entendimento sobre essa questão. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

61° DIA

 O uso da droga como um impulso. A necessidade de fazer a realidade vibrar em diferentes ondas. O impulso por ondas e frequências que trazem prazer, alivio e satisfação. Ou, simplesmente, felicidade. Talvez, o impulso em ser feliz por algum momento. A paz em cada copo, dose ou trago. 

Os seres humanos são criaturas impulsivas. Buscam por ondas e frequências através do uso de substâncias. O impulso é o mesmo, porém, os caminhos produzidos são diferentes. As experiências com drogas são semelhantes, mas, nunca iguais. 

As ondas são diferentes, pois, refletem a necessidade de cada usuário. As frequências são diferentes, uma vez que, os efeitos mudam de acordo com a estado físico e mental, da condição social e econômica de cada pessoa. 

O impulso por consumir drogas, não necessariamente, estão relacionados as drogas. Na verdade, este impulso, é algo da condição humana. Em outras palavras, o impulso pode entendido como  vontade de viver. Todo ser vivo possui o impulso em se manter vivo. Todo ser vivo tem a vontade em continuar sua vida. Podemos chamar essa necessidade de instinto. A fissura em continuar existindo. O impulso por um desejo. A vontade em conseguir algo que torna a vida diferente. 

O ser humano pode ser caracterizado devido a sua capacidade de aprender, interpretar, criar e buscar por conhecimentos que consigam tornar sua vida menos incompleta. É a eterna busca por tornar aquilo que somos: humanos. 

O impulso em encontrar a humanidade perdida. A fissura em satisfazer um vício. A vontade de diminuir o sofrimento. O impulso em encontrar a felicidade. A fissura de respeitar suas falhas. A vontade em reconhecer as fragilidades. Isso, são movimentos harmônicos e desarmônicos da existência. São movimentos associativos e dissociativos de uma vida. São os impulsos de uma droga. Impulsos da vida. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

60° DIA

 O uso da droga como disciplina. Entendida a partir de causas e efeitos de escolhas, situações e acontecimentos. Causas incontroláveis que surgem a partir de eventos, encontros e desencontros. Efeitos inconsciente de comportamentos, expectativas e imponderáveis. A disciplina é uma normatividade exigida conscientemente pela sociedade. Não é algo que se busca. É algo desejável. Necessário a convivência. Uma instituição que representa a consciência moral e social da realidade. Também é algo que se perde. Porém, a disciplina permite formas de negociações entre pessoas e instituições. As pessoas não estão totalmente disciplinas por instituições. E as instituições não conseguem disciplinar totalmente as pessoas. É uma relação contraditória. 

A disciplina é um sistema aberto e fechado ao mesmo tempo. Fruto da sociabilidade, a disciplina exige engajamento, agência e ação prática sobre o mundo. A disciplina que se torna corpo. O corpo de se torna uma habilidade a ser utilizada. A disciplina e habilidade do corpo como uma técnica corporal. 

Em outra palavras, disposições de comportamento refletidos e irrefletidos denominados de habitus. O uso da droga como um habitus socialmente construído a partir de estruturas estruturadas e estruturas estruturantes. Em resumo, a droga estrutura o usuário. E o usuário é estruturado pela droga. Ou o usuário estrutura a droga e, a droga é estruturada pelo usuário. O que observamos na sociedade é: pessoas com disposição a consumir baixo, médio e alto nível de substâncias. Isso, não necessariamente, é uma regra. Porque os níveis de drogas são contingenciadas dentro de contexto de usos e disposições culturais do usuário. O que podemos encaminhar é tentar analisar as experiências pessoais de consumo e relaciona-las com as experiências coletivas. Tentando compreender a complexa relação do usuário com a sociedade e da sociedade com o usuário. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

59° DIA

 O uso da droga como uma forma de viver o presente. As drogas são luzes sobre o futuro, vícios do presente e sombras sobre o passado. A pessoa usuária vive uma relação contraditória com o tempo, com a vida e com outras pessoas. Algo que atinge, particularmente, a pessoa não usuária. 

Orientamos o comportamento, conforme as sombras do passado, os vícios do presente e as luzes de um futuro que nunca chega. Porém, que não deixa de ser desejado. ]

A droga é um componente dessa complexa funcionalidade chamada de existência. É uma ferramenta de combate. Uma ferramenta de defesa. As pessoas estão procurando se defender das situações limites, dos seus próprios limites, de si próprios, dos outros etc.

 A vida é um ato de coragem. De grandes derrotas e pequenas vitórias. Mas, quem sabe apreciar o sabor das "pequenas vitórias" não se assusta ou se apavora com as derrotas cotidianas. Precisamos viver o presente. Encontrando luzes ao final dos túneis. Contornando os vícios e aprendendo com as sombras. As pessoas são dialéticas em suas escolhas, decisões e experiências. É preciso insistir em humanizar o humano desumanizado. É um eterno retorno as condições que permitem a vida em sociedade acontecer. Dentro das pluralidades e multiplicidades de formas de existir, a droga, é uma das milhares de possibilidades que existem de viver o presente. Cabe, a pessoa, ao ser humano, indivíduo, conhecido ou desconhecido. Descobrir suas potencialidades de expressar a sua condição humana do futuro, passado e presente. 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

58° DIA

 O uso de drogas como uma vontade de potência. Necessidade de transgredir o status quo. Eliminar temporariamente o tédio existencial. Não é fácil seguir uma vida e administrar as misérias humanas de uma existência sem sentido. 

A transvaloração dos valores é uma hipótese que se realiza com a bebida. Estar embriagado é atingir um estágio aparentemente superior, alternativo, diferente e fugaz. Porém, a drogadição no geral, é uma forma de alcançar algo perdido. 

Os remédios são vontade de potência de cura de enfermidades. As drogas são vontade de potência criativas, sociais e culturais. Possibilitam representar a realidade a partir de parâmetros singulares, particulares e individuais. As representações da realidade, também são uma necessidade humana fundamental da experiência humana. 

Não é possível viver sem potência e representação. A vida precisa ser simbolizada em seus usos e desusos. Os comportamentos humanos são ambivalentes. Carregam a doença e a cura. A dependência e a autonomia. A escravidão e a liberdade. O sofrimento e o prazer. A tristeza e a alegria. Essa ambivalência nos torna humanos. 

Somos carentes e necessitados. Procuramos preencher os vazios de nossas ausências e diminuir nossa carga de sofrimento. Já diria o outro,  não existe respostas fáceis para questões complexas. Apenas reflexões que tentam de forma imperfeita, com a intenção de compreender a realidade, que sempre escapa ao entendimento. Porém, o vício é maneira de continuar buscando pelas respostas que, aparentemente não virão. 

A vontade de potência é um meio de continuar. Seja qual for a mensagem que isso signifique. Talvez, não signifique nada mas, o que importa é continuar. 

A droga não é um fim em si mesmo. Ela é uma mensagem sobre o desconhecido. Uma incógnita que se revela no vício e dependência. Uma incógnita que se revela nas próprias misérias humanas e sociais. O que importa é continuar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

57° DIA

 O uso da droga como um trabalho, que exige do usuário dedicação, esforço, tempo e compromisso com a jornada. Uma forma de transformação do trabalho abstrato em trabalho concreto. A abstração de aprender a controlar os sintomas e a concretude em manter o controle sobre aquilo que não necessário pode ser controlado. Trabalhando com os efeitos no organismo. Aprendendo a curtir os efeitos. Desprendendo-se da realidade. 

A droga exige do usuário um trabalho socialmente orientado. É preciso saber trabalhar com os desvios, normas e sanções impostas pela sociedade. É preciso saber lidar com os empreendedores morais que classificam comportamento como adequados e inadequados. Isso requer habilidade, técnica e criatividade. Uma forma de trabalho que qualifica as mediações do usuário, sua droga e a sociedade. 

O trabalho na sociedade capitalista. É sempre uma forma de exploração. Explora-se o tempo de vida do trabalhador e o transforma em mais-valia. O usuário também é explorado a partir do vício. Explora-se seu tempo de vida. O trabalho na sociedade capitalista é marcado pela contradição fundamental entre capital e trabalho. A exploração valoriza o capital na medida proporcional em que desvaloriza o trabalho. Ou seja, é a pessoa que acaba sendo desvaloriza no seu ofício operário.

 Com a droga é uma contradição diferente. Ao valorizar a droga. O usuário de desvaloriza na sua humanidade. É uma relação ambígua. Essa relação de ambiguidade produz frustração, revolta, consciência, superação etc. É a partir dela que o usuário pode tomar consciência do seu lugar no mundo. Do seu lugar na luta de classes. Do seu trabalho de transformação.

domingo, 24 de novembro de 2024

56° DIA

 O uso da droga como oportunidade de aprendizagem. No sentido de acessar o desconhecido. Criar hipóteses sobre a realidade.  Desenvolver aptidões sobre limites e possibilidades de lazer, diversão, compromisso e responsabilidade. Uma aprendizagem que caminha ao lado da consciência do que acontece comigo e com os outros a minha volta. 

Nesta jornada de usos e abusos, o usuário não está sozinho. Nesta jornada de pausas e recuos, o usuário não está sozinho. Todos os seres humanos são criaturas sociais, ou seja, são produto do mundo social. A sociedade é uma forma de consciência coletiva que organiza moralmente as pessoas a partir de valores compartilhados. 

A moralidade é uma força social que mantém as pessoas conectadas. Essas conexões são oportunidades de aprendizagem. Ninguém é totalmente sozinho ao ponto de não prestar satisfação de seus comportamentos, pensamentos e sentimentos a outras pessoas. E ninguém é totalmente "prisioneiro" da comunidade que convive. Somos criaturas criativas e inventivas. Procuramos maneiras de não desistir de nossas necessidades. Criamos conflitos para justificar nossas escolhas. Criamos confiança ao enfrentar as adversidades. Aprendemos a partir de erros, falhas e imperfeições. Aprendemos a partir de acertos, conquistas e vitórias.

 Cada ser humano é um potencial em si mesmo. É fruto de criatividade, persistência e aprendizagem. Pensar a droga como um forma de aprendizagem. É humanizar a droga. Percebendo o caráter potencial do seu uso. O potencial, é claro, não excluir o poder de destruição que elas causam. Assim como, os outros vícios que corroem os laços humanos e sabotam a autonomia da pessoa. Porém, a droga é uma forma de aprendizagem sobre a vida. Deixar de usar drogas legais e ilegais  pode ser  mais uma etapa da jornada. É possível aprender de outras maneiras. É possível buscar por outras realizações. Em todo caso, a humanidade caminha criando novas drogas e reprimindo o seus usos. Criando novas drogas e curando doenças. É uma contradição desde o início da civilização. Podemos aprender com isso. Criando novas possibilidades usos e abusos. Precisamos usar a inteligência para melhorar a vida em sociedade. 

sábado, 23 de novembro de 2024

55° DIA

 O uso da droga como um vir-a-ser. Como um "não sei" o que pode acontecer. Como um comportamento que ganha sentido no movimento, na ação, na interação e em relação a coisas, objetos e pessoas. Quando digo vir-a-ser, quero dizer na possibilidade das coisas acontecerem fora do alcance intelectual. Isto é, fora dos domínios da razão. 

A droga é uma forma de acessar o devir humano fora da consciência. Ou melhor, em nome do devir, a droga potencializar transformações da composição neuronal, biológica e social. Cria-se momentaneamente, uma ruptura com a realidade. Produzindo efeitos em cadeia. Efeitos que não cabem dentro de padrões social institucionalizados, isto é, comportamentos considerados "normais" pelas outras pessoas. Principalmente, as não usuárias. 

O devir é algo que opera a partir de parâmetros (des)institucionalizados da agência humana. São comportamentos imprevisíveis, criativos, contraditórios, ambíguos, ambivalentes e etc. Em outras palavras, é o mistério do "não sei" o que vai acontecer. Mesmo com todas as tentativas de prever como se dará o acontecimento. Apesar de tentar se adiantar ao que virá. Precisamos compreender que as possibilidades são infinitas. Precisamos aceitar que a flexibilidade e elasticidade do comportamento humano também refletem na flexibilidade e elasticidade do pensamento. Alterar o comportamento já é uma forma de alteração da consciência. Não seria errado afirmar o contrário. Uma vez que, a mudança de pensamento pode ser uma mudança de comportamento. 

Porém, não existe uma mecânica neste processo. O ser humano é uma criatura social. É influenciado por coisas, objetos, acontecimentos e pessoas e influencia pessoas, acontecimentos, objetos e coisas. Não existe uma "mecânica social" no comportamento do usuário. Pelo contrário, existe uma rede social distribuída no tempo e espaço. Diluída nas relações sociais. Demarcadas pelas interações que tornam a vida em sociedade possível. A vir-a-ser é ditado pela dinâmica dessa rede social que mantém as pessoas interdependentes conectadas. 

Não sabemos o que irá acontecer. Sabemos, que somos dependentes de relações e interações que tornam o uso da droga em um devir. Ou seja, Na possibilidade da vida acontecer.   

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

54° DIA

 O uso da droga com esclarecimento. No sentido de assumir uma posição de discernimento de coisas, objetos e pessoas. Assumindo o compromisso com a substância. Com a teimosa necessidade de encontrar o que lhe foi perdido, tomado e sequestrado. Ter esclarecimento sobre minha condição. Encontrar uma clareza sobre meus comportamentos e pensamentos. 

A droga é um elemento que potencializa vontades. Por isso, é tão usada. Porém, a vida também exige da gente outros tipos de potencialidades. Outros tipos de vontades podem ser descobertas. Outros tipos de necessidades para serem satisfeitas. É preciso buscar pelo esclarecimento sobre vida. Na teimosa tentativa de justificar, compreender e reafirmar nossa condição enquanto seres humanos. 

Carentes por natureza, buscamos pelo reconhecimento de outras pessoas a partir daquilo que nos achamos bons. Somos bons em criar alternativas. Em socializar experienciais sociais catalizadoras de momentos inesquecíveis. De momento humanizadores. 

É importante ter a clareza que podemos ser várias individualidades. O usuário é uma identidade falha, incompleta e imperfeita. Precisamos saber respeitar nossas outras individualidades que existem em nosso ser. Elas precisam ser cuidadas, incentivadas e cultivadas. A droga é uma forma de esclarecimento. Ou melhor, é uma forma de obter, mesmo que de maneira fugaz, o esclarecimento sobre a realidade. 

Viver é uma busca pelo esclarecimento. Nossa vida pode ser caracterizada por diferentes níveis de esclarecimento que obtemos durante nossa existência. Nossas experiências são demarcadoras de esclarecimento. É preciso viver e suportar a vida. Para encontrar o esclarecimento. Tomando consciência das nossas necessidades (não sei até que ponto isto é possível). Para tornar possível chegar até o esclarecimento. Ou, um momento de lucidez em meio ao caos. Uma luz na escuridão que radia para todos os lados. Orientando e guiando o ser humano a encontrar outras possibilidades, formas e maneiras de encontrar a felicidade. Isto é, o esclarecimento.