sábado, 23 de novembro de 2024

55° DIA

 O uso da droga como um vir-a-ser. Como um "não sei" o que pode acontecer. Como um comportamento que ganha sentido no movimento, na ação, na interação e em relação a coisas, objetos e pessoas. Quando digo vir-a-ser, quero dizer na possibilidade das coisas acontecerem fora do alcance intelectual. Isto é, fora dos domínios da razão. 

A droga é uma forma de acessar o devir humano fora da consciência. Ou melhor, em nome do devir, a droga potencializar transformações da composição neuronal, biológica e social. Cria-se momentaneamente, uma ruptura com a realidade. Produzindo efeitos em cadeia. Efeitos que não cabem dentro de padrões social institucionalizados, isto é, comportamentos considerados "normais" pelas outras pessoas. Principalmente, as não usuárias. 

O devir é algo que opera a partir de parâmetros (des)institucionalizados da agência humana. São comportamentos imprevisíveis, criativos, contraditórios, ambíguos, ambivalentes e etc. Em outras palavras, é o mistério do "não sei" o que vai acontecer. Mesmo com todas as tentativas de prever como se dará o acontecimento. Apesar de tentar se adiantar ao que virá. Precisamos compreender que as possibilidades são infinitas. Precisamos aceitar que a flexibilidade e elasticidade do comportamento humano também refletem na flexibilidade e elasticidade do pensamento. Alterar o comportamento já é uma forma de alteração da consciência. Não seria errado afirmar o contrário. Uma vez que, a mudança de pensamento pode ser uma mudança de comportamento. 

Porém, não existe uma mecânica neste processo. O ser humano é uma criatura social. É influenciado por coisas, objetos, acontecimentos e pessoas e influencia pessoas, acontecimentos, objetos e coisas. Não existe uma "mecânica social" no comportamento do usuário. Pelo contrário, existe uma rede social distribuída no tempo e espaço. Diluída nas relações sociais. Demarcadas pelas interações que tornam a vida em sociedade possível. A vir-a-ser é ditado pela dinâmica dessa rede social que mantém as pessoas interdependentes conectadas. 

Não sabemos o que irá acontecer. Sabemos, que somos dependentes de relações e interações que tornam o uso da droga em um devir. Ou seja, Na possibilidade da vida acontecer.   

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